O programa “Chaves” é o retrato dos habitantes de uma vila, que também pode ser considerada um cortiço.

Trata-se de uma construção antiga alugada por pessoas de baixa renda. No caso do seriado, Seu Barriga é o dono da vila e cada inquilino reside em uma casa, com direito a mais de um quarto, cozinha e banheiro (sendo que muitos cortiços da vida real não contam com estes benefícios).

 O programa “Chaves” é o retrato dos habitantes de uma vila, que também pode ser considerada um cortiço.

Os primeiros esquetes (quadros curtos de humor) do Chaves surgiram na primeira versão do Programa Chespirito, uma ampliação do programa Chespirito y La Mesa Cuadrada. Inicialmente, o programa exibia esquetes do Chaves, do Chapolin e outros quadros de humor. Até que em 1973, a turma da vila e o vermelhinho ganharam seus próprios programas.

Nesta vila vivem os mais variados tipos de indivíduos, compartilhando um mesmo pátio, um mesmo tanque para lavar roupas, um mesmo varal… o que pressupõe que ocorram desentendimentos. Na obra O Cortiço, de Aluísio Azevedo, o próprio cortiço é o protagonista da obra; no seriado “Chaves”, a vila não o é, porém, tem grande importância para podermos entender o comportamento de seus moradores e suas relações.

No primeiro pátio da vila, o mais importante da construção, Dona Florinda e seu filho Kiko moram no apartamento 14. Eles se acham melhores que os demais moradores e procuram “não se misturar com a gentalha”. Dona Clotilde, chamada de “Bruxa do 71”, é a vizinha de Florinda. A numeração das casas da vila é uma incógnita: não tem continuidade, e em alguns episódios tais números são alterados. Neste pátio também mora o desempregado Seu Madruga e sua filha Chiquinha (e a partir de 1979 a casa 72 é ocupada pela mesma Chiquinha e sua bisavó, Dona Neves). Há ainda o apartamento 23, em cima da escadaria, ocupado pelas novas vizinhas Glória e Paty.

Há também o segundo pátio, com sua fonte que será utilizada em uma das traquinagens de Chiquinha e o terceiro, que embora os próprios moradores dizem existir, nunca foi filmado. E claro, na vila também mora o garoto Chaves. “Chavo del Ocho”, no original, significa o “menino do oito”. Chaves é o retrato de muitos meninos pobres e órfãos, que não tem muitas oportunidades na vida, daí o fato de seu nome próprio não ser divulgado e seu vocativo ser apenas “Chavo” (Chaves, no Brasil). Como o próprio nome com que ele é conhecido indica, Chaves não mora no barril, embora goste de ficar bastante tempo dentro deste objeto, e sim, no apartamento número 8. O dono da vila permite que ele durma nesta casa, contudo, as condições não devem ser muito boas. Dona Florinda, na saga dos Espíritos Zombeteiros, comentou que Chaves dorme no frio do chão. Ainda sobre o nome do personagem, Chespirito disse recentemente em entrevista ao portal La Razón que não se recorda do nome real do Chaves.

Apesar da pobreza e da falta de melhores condições, os moradores da vila do Chaves levam a vida como podem. Seu Madruga, embora afirme que “não há trabalho ruim, o ruim é ter que trabalhar”, está sempre envolvido em bicos para garantir o sustento dele e de sua filha. Ele é constantemente paquerado por Dona Clotilde, ainda que deixe claro que este amor nunca será correspondido. Já o grande amor de Dona Florinda (além de seu próprio filho e o ex-marido Frederico, que era marinheiro e foi devorado por um tubarão) é o Professor Girafales. O professor alto leciona na escola que reúne Chiquinha, Nhonho, Kiko, Chaves, Godinez, Pópis e outros personagens como alunos.

As confusões que os moradores se vêem envolvidos servem ao mesmo tempo como motivo de riso para o telespectador e também não deixam de ter um tom moralizante. Chespirito ensina lições aos que o assistem de duas formas: diretamente, com frases sobre o amor e o mal da vingança, e também, com tom moralizante, que seria para o telespectador entender que quem age como o egoísta e mesquinho Kiko acaba se dando mal, enquanto outros personagens conseguem dar a volta por cima mais facilmente quando necessário.

Apesar destas confusões, a vizinhança está sempre unida, na anual “Festa da Boa Vizinhança”, no Natal, no Ano Novo, na festa da pichorra, e ainda realizam festas de aniversários, para o Kiko e para o Seu Madruga, por exemplo. Muitos momentos são de plena alegria, como o memorável episódio em que todos decidem passar as férias em Acapulco após Chiquinha comprar um objeto para limpar pratas e a partir disso ser sorteada para viajar com duas pessoas para esta cidade mexicana.

Seu Barriga, o dono da vila, é uma pessoa de coração mole. Sempre é recebido na vila com uma pancada, ainda que o Chaves faça isso “sem querer querendo”. Mesmo assim, ele tem bastante afeto pelo garoto, levando-o para viajar e ajudando-o em diversos momentos. Ele também ajuda o Seu Madruga. Mesmo que este não pague o aluguel há quatorze meses, Zenon (o nome de Seu Barriga) permite que ele continue morando na vila, chegando ao ponto de inventar uma desculpa para anular o pedido que ele mesmo havia feito para que o pai da Chiquinha deixasse sua casa. Seu Barriga ainda levou os moradores para ficarem quinze dias em sua casa enquanto a vila estava em reformas.

E este é o seriado “Chaves”, com episódios que mostram o dia-a-dia de famílias aglomeradas numa vila, cada indivíduo com seu modo de agir, com seus sonhos. Um ambiente humano: com discussões e confusões, mas ao mesmo tempo onde predomina o amor e a amizade.

No dia 24/08/2014, as séries Chaves e Chapolin completaram trinta anos de exibição no Brasil.